segunda-feira, 13 de junho de 2011

Relendo as minhas histórias, encarando o que escrevi.
Diante do que sou, do que sempre fui. Ser só foi a minha segurança.
Usei minhas palavras para (d) escrever finais.
Agora, nosso começo. Eu, toda insegura.
O coração, que sempre manteve o mesmo ritmo,
de súbito o perdeu.
E de tanta ansiedade, foi parar na boca.
O susto do amor recém nascido.
O que já não cabe no peito.
Vomito meu coração e todos os medos.
Nas minhas mãos, já não sei o que fazer dele.
Te entrego. Vivo, frágil.
Você me toma com delicadeza e cuidado.
Mas o sentimento que me causa é violento. E fere sem querer.
Rasga o peito ao mesmo tempo que acaricia,
o encanto me apavora.
A força com que me entrego é a que não serve para lutar contra.
Desfaz as minhas certezas e traz outras, que serão sempre in.
Depois de estar ao seu lado, desperto com o medo.
A voz quase não sai, mas eu transpareço.
E confesso: é maior do que eu.

"Amar sem inquietação é amar sem amor" Carlos Drummond de Andrade

sábado, 19 de março de 2011

Eis meu caderno novo. Você aqui. Novamente?
Não, a história não se repete.
A nossa história não pode e não vai se repetir.
Reinventamos.
Inventei de te rever.
Retomar os mal resolvidos, colocar a pontuação correta.
Por muito tempo esperei e acreditei que esse dia chegaria.
Chegou.
Com a certeza de que não temos solução.
Quanto mais você me vê, menos me enxerga.
Me come com os olhos, mas não é capaz de saber uma entre as milhões de coisas que se passam na minha mente.
Me tira do sério. Porque nós não somos sérios.
Quanta brincadeira...
Criancice. Encostar onde não se deve.
Coloco-me diante de você, protejo meu coração.
Tudo que vê em mim, você ama. Mas aquilo que não pode ver, não posso trazer pra perto.
Você me quer, pela metade. Rasamente.
Vem molhar os pés, não impeço.
Aproveite o que disponho, só compreenda que nem tudo está à sua disposição.
Faça esse favor a nós dois.
Não fuja daquilo que não te persegue. Você se cansa à toa.
Não há segredo. Só desejo. I-n-e-v-i-t-á-v-e-l.
A culpa é dos astros.
Vem rir e concordar que nossa atração é uma 'conexão kármica entre taurinos e virginianos'.
Vem, eu te ofereço minha companhia em jogos de futebol, domingos de ócio, mesas de bar e quartos de hotel barato.
Ofereço meu melhor humor. Posso dividir a cerveja, a conta, o prazer.
Nunca mais me dividirei, já que depois de meses em dúvida, posso dizer que não amo você.

sábado, 5 de março de 2011

Coleciono frases. Alheias.
Guardo os poemas dos outros.
Os que lemos juntos.
Os que você me entregou.
Aqueles que li sozinha.
Leio, leio, releio.
Em mim só o silêncio.
Silêncio de alguém que não esquece.
Silêncio. Falta de esperança.
Falta a fé. Falta o sonho.
Falta você, meu amor.
Falta amor. Sobra.
Falta a sua cor.
Falta vontade de escrever.
E um dia te escrevi:
'você é único. tão único que se eu fosse capaz de escrever uma história real, eu a escreveria para você'
Foi tanta sinceridade que chega a doer.
Não fui capaz.
Nem mesmo de escrever outra sem você.
Não pude inventar.
Não pude evitar, nossa história interrompida.
Nosso encontro, pura delizadeza.
Nossa separação, brusca.
Nossa escolha?! Não existiu.
Imposição. Destino. Acaso. Pouco importa.
Bonito. Triste. Intenso. E trágico.
Que capítulo você escreveu em mim.

"Por sobre duras ausências
e excursões mui prolongadas
eras mais meu ao fugir-me,
porque já em ti me levavas."
(Carmen Toscano)


sexta-feira, 4 de março de 2011

amor vira-lata



Morte. Tremo diante dela.
Morre um pedaço meu. Um pedaço de quatro patas. Sem raça nem idade definida.
Fica uma saudade infinita. A certeza de que cachorro é, sim, parte da família.
Fica a alegria registrada por mais de dez anos. Metade da minha história.
A vida se desdobra pra afastar a dor da perda. Continua acontecendo.
"Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte."*
Morte que representa o fim da minha infância. Infância que se prolongou nas brincadeiras no quintal com bola/pano/garrafa.
Morte que representa o fim de uma amizade, da cumplicidade entre o avô e o cachorro. Uma das mais bonitas que já vi. Vi, ninguém me contou. E ainda farei questão de escrevê-la.


*Guimarães Rosa

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Foi

Enquanto te espero chegar, me aproximo do viaduto
Lá embaixo a avenida, diferente de outros dias,
está tranquila.
Você chega. O silêncio da cidade.
No meio dessa vida maluca, um pedaço de felicidade.
Um pedaço não só meu, paulista.
Nem só seu, turista.
Um pedaço nosso.
O dia segue em ritmo lento.
O lado sereno de São Paulo que nunca conheci.
Um parque - retrato de tantos amores.
Um vestido estampado. Um livro do Saramago.
Um abraço apertado. Nosso amor sendo pintado.
O céu anuncia que a chuva se aproxima.
A chuva anuncia que a terra da garoa vai voltar a ser a mesma.
Caminhamos pelo centro. Você com o seu olhar estrangeiro,
eu com meu sentimento.
Chegamos ao metrô. Te ensino uma palavra nova: Saudade.
Ele parte. Você de volta pra casa, eu de volta pra realidade.
O ritmo volta ao normal - o coração quase para de funcionar.
Colocamos nossa razão em dia. Cada um em seu lugar
- onde o outro não cabe.
As lembranças vão se fragmentando, o vazio retorna de suas breves férias.
Preto e branco. Percebeu como a cidade é cinza?
Vivi dias coloridos,
e terminei com a visão de ter sido a única impressionada com essa história.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

- Menina, você por aqui a essa hora? Sozinha ainda por cima?
- É... (silêncio)
- Mas e aí, o que vai pra hoje? Tá estudando?
- Uma cerveja, seu Mário, por favor.
- Olha só o que acabei de encontrar...sua canção preferida.

O coração latejou. Certas canções são capazes de despertar, em um segundo, saudade de anos....

- É que a mocinha sempre gosta de estudar ouvindo essa...

Não, ela não estuda. Nem sequer aprende aquilo que vive a repetir nas folhas e mais folhas de um caderno que parece não ter fim.

- Quer que eu pare a música?

Ela reflete, a boca seca, a cerveja que Seu Mário esqueceu de trazer.

- Chega de cantar essa saudade.

Levanta e enquanto sai, escuta:

- Ei, espera! Lô acabou de ligar, disse que vai passar por aqui.

Ela para.

- Ah, vai passar por aqui?
- Sim.
- Então entrega o caderno pra ele. E diz que esqueci.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Desaprendi sentimentos e sensações.
Desconheço o que incomoda a maioria.
Sensata, sem a preocupação de estar feliz ou triste.
Preciso me desequilibrar.
Tenho feito tudo tão certo. E fazer tudo certo traz a sensação de errar comigo constantemente.
Me transformando diariamente, sem que ninguém veja, sem que ninguém saiba ou interfira.
Esse reinventar que traz a sensação de estar cada vez mais só. Como se nada pudesse me atingir.
Nem positiva nem negativamente.
Mais fundo em mim, mais superficial em relação aos outros.
Aprendi cedo demais que tudo tem fim, falta aprender que, para alcançar o fim, é necessário viver. Manter o ciclo e não rompê-lo.
Economizo minha capacidade de sentir e desejar. Vivo me adiando.
É tão díficil se descobrir.